Mario Melillo: Cultivando sencillez

Uma receita extremamente simples

Tudo é muito simples desde que não se complique.  Alexandre Dumas dizia que para escrever bem é necessário saber cozinhar bem. Podemos entender a razão desta frase, quando observamos que as duas atividades requerem um tanto inspiração, técnica e improviso. Saber conjugar bem as palavras e os alimentos é coisa bem parecida. Muitas vezes, para se atingir o sabor incomparável ou o texto envolvente, não é preciso o uso de iguarias ou palavras sofisticadas, mas o uso da simplicidade. No fritar dos ovos, (e fritar ovos deve ser uma coisa muito simples) o que se busca com uma e outra coisa é alimentar-se com prazer, seja o corpo ou alma. Tive a sorte de conviver nesse mundo com um poeta que nos deixou há pouco tempo, Bartolomeu Campos de Queiroz.  Um dos poucos poetas que de fato existiram e, posso dizer sem medo de errar, se ele não fosse escritor, mas cozinheiro seria dono do melhor arroz com feijão do mundo!

Tentando entender Dumas, lembro-me que na minha infância as coisas eram muito simples e sempre plenas de vida, entusiasmo e de alegria. Minha família costumava passar os fins-de-semana em nosso sítio, às margens da Lagoa Rio das Pedras, no Distrito de São Gonçalo do Monte, no município de Itabirito. (Facilmente encontrável pelo Google Earth). Alguns rituais, que sempre envolviam fogão a lenha e coisas da roça nunca me saíram da lembrança. Levantávamos por volta das cinco e trinta da manhã, aos gritos do vaqueiro, nos convocando para o leite ao pé da vaca. Quando saíamos para o curral carregávamos canequinhas esmaltadas, contendo um pouco de açúcar mascavo no fundo para cobrir com o leite que saía quentinho e espumoso. O Luis do Ladico, nosso vaqueiro, perguntava, “com apojo ou sem apojo?” O que, toscamente traduzindo para a linguagem de botequim seria, “com ou sem espuma”. Depois do curral seguíamos para a cozinha onde havia uma mesa com broas, biscoitos e café. Pao francês era coisa da cidade. Estávamos no campo, sem luz elétrica, em meados dos anos 70.

Após este frugal desjejum, meu pai costumava preparar a tralha de pescaria para nos levar a  algum bom pesqueiro, que só ele sabia, a despeito da imensa lagoa que estava a poucos metros de nossa casa. Sempre distantes esses pesqueiros – íamos de Variant 72.

Lembro-me de um sábado luminoso, logo após o café da manhã, resolvi tirar uma leve soneca até que tudo estivesse pronto para a pescaria. Embalei no sono, um bom e suave sono dos inocentes. Quando acordei, vi que todos os irmãos, juntamente com meu pai, haviam partido.  Eu ficara com minha mãe na casa do sítio, decepcionado por ter ficado para trás, mas não me dei por vencido. Haveria de pescar de qualquer jeito.

Na sala da casa havia uma varinha de pescar que era uma ornamentação, junto a esta uma cumbuca, feito de côco.  A varinha não tinha mais que um metro de comprimento, mas possuía linha de nylon e anzol “mosquitinho” e funcionava tão bem quanto todas as outras não-ornamentais. (creio que são as mesmas que estão ali ainda hoje). Recolhi o equipamento, em seguida peguei um enxadão e fui para a horta catar umas minhocas para iscas. Coloquei as iscas na cumbuca e na passagem pela cozinha peguei um papel de embrulho e fiz uma trouxinha de sal, peguei ainda um limão e uma caixa de fósforos. Desci para a lagoa com este arsenal de pesca barranqueira. Arranjei-me entre o capim navalha e as taboas, equilibrando-me num lugar onde chamávamos “as pedras” (um braço de terra encharcado que separa a lagoa e o Rio das Velhas perto da Ponte da Bacia onde recentemente colocaram um marco da estrada real).

Logo, os lambaris começaram a reluzir no ar suas escamas prateadas  e brilhantes pelos raios de sol. O meu coração de menino sentia uma alegria enorme, íntima, solitária e indizível. Ainda sem ter degustado nada da pescaria já começava a sentir a alma plena. Creio que em menos de uma hora já havia pescado cerca de 15 lambaris, que eu ia colocando num feixe feito do caule do capim navalha. Em seguida, procurei fazer uma fogueira. Ali já haviam algumas pedras outrora usadas por pescadores habituais do local com este mesmo propósito. Foi fácil. Achei gravetos bem secos e com outras madeiras encontradas fiz uma boa fogueira. Atravessei os peixinhos com um canivete, retirei as vísceras, as escamas e os lavei na água da lagoa. Em seguida temperei com o pouco de sal que havia trazido e fiz um espeto com o galho de um arbusto propicio para a ocasião, como revela seu próprio nome “assa-peixe”.  Tudo pronto era só pingar umas gotículas de limão.

Em alguns minutos, pude saborear o resultado de minha primeira aventura gastronômica.  Alguns peixinhos assados com sal e requintados com limão.

Naquele tempo eu não sabia que estava a alguns metros da estrada real.

Espero ter compreendido o que disse Alexandre Dumas.

 

Mário Melillo é o autor de “Os Contos do fim do Mundo” e de “Íris Infinita”.